História Infantil Cristã sobre a Criação em Gênesis 1

A Grande Tela do Artista Supremo

Faixa etária:  6 a 9 anos

História infantil sobre a criação do mundo, com Liri, uma menina que aprende a observar, criar com carinho e valorizar seus desenhos.


Liri tinha sete anos, cabelos pretos e crespos que viviam escapando do elástico, e um caderno de desenhos tão cheio que já não cabia na gaveta. Seu quarto era uma bagunça: havia lápis no chão, folhas amassadas embaixo da cama e pedacinhos de giz de cera perto da janela. Nem a vassoura da Vó Nina conseguia tirar de lá o cheirinho de borracha velha. — Mãe, eu queria desenhar uma coisa bonita, mas sai tudo torto — disse Liri, mostrando seu desenho mais recente. Nele havia um sol verde, uma árvore de cabeça para baixo e um passarinho que parecia um sapo com asas.

A mãe riu baixinho, daquele jeito que Liri conhecia bem, e respondeu sem tirar os olhos da panela de canjica: — Liri, meu amor, desenho torto também é desenho. Mas, se você quer saber como o artista mais antigo do mundo fazia as coisas, talvez seja melhor perguntar a ele, não é? Liri ficou quieta no chão, com o caderno no colo e os joelhos sujos de giz. Enquanto juntava os lápis por cor, pensou: “Quem será ele?”. Os lápis verdes tinham sumido; talvez estivessem embaixo da cama ou dentro do tênis.Lá fora, a mangueira balançava devagar, um sabiá cantava no fio do poste e o cheirinho de terra molhada entrava pela janela. Tudo parecia estar no lugar certo. Já o desenho de Liri fazia seu coração ficar apertadinho, pois ela queria acertar, mas não sabia como. “Será que alguém desenhou o mundo?”, murmurou para si mesma. Da cozinha, a mãe sorriu sem dizer nada, pois sabia que algumas perguntas precisam de tempo para encontrar resposta.

A janela ficou roxa e, depois, azul-escura. A luz da mesinha de cabeceira se acendeu, como acontecia todas as noites quando a mãe a ligava. Liri escovou os dentes depressa e pulou na cama com o caderno escondido debaixo do travesseiro. — Quem será que desenhou o mundo? — sussurrou para o teto, mas o teto não respondeu. O sono chegou devagar, como uma nuvem descendo o morro, e Liri adormeceu até chegar a um lugar que ela não sabia nomear.

O lugar era enorme e não tinha paredes, chão nem teto. Tudo era branco, mas não como uma folha de papel: era um branco de antes de tudo começar, como o silêncio que vem antes de uma música. — Oi? — chamou Liri, baixinho. No meio daquele espaço apareceu uma luz que não era lâmpada, sol nem vaga-lume. Parecia ter vontade própria e olhar para ela com atenção.

Então veio uma voz calma, que Liri sentiu como um pensamento carinhoso. — Você queria saber quem desenhou o mundo, Lirinha? Liri assentiu devagar, porque naquele lugar era difícil encontrar palavras. — Venha comigo. Vou mostrar, mas há uma regra: você só vai observar. Não pinte, não apague e não mexa em nada, combinado? Liri balançou a cabeça para dizer que sim, e a luz se transformou em um caminho dourado sobre o chão branco.

Ela seguiu pelo caminho. A cada passo, o branco mudava: primeiro ficou cinza-claro, depois azul, como a cor de um quadro antigo que a Vó Nina guardava no quarto. — Este é o primeiro dia — disse a voz. De repente, a luz e a sombra se separaram, e Liri entendeu o que estava acontecendo sem precisar de muitas explicações. — Bonito, não é? — perguntou a voz. Liri só conseguiu balançar a cabeça, maravilhada, e continuou pelo caminho dourado.


No segundo dia, a voz disse: — Haja um céu. E apareceu um céu bem azul, da cor de um ovo de sabiá que a Vó Nina mostrara a Liri. As águas também se separaram: havia água no alto, que formava as nuvens, e água embaixo, que se tornava mar. Liri arregalou os olhos e pensou: “Como assim, água da água?”. — Tudo isso aconteceu com uma palavra? — perguntou, quase sem voz, e a luz dourada pareceu responder que sim.

No terceiro dia, apareceu a terra seca. Depois vieram as plantinhas: primeiro o capim miúdo, depois as árvores e, por fim, as frutas, cada uma no seu tempo. Liri viu uma mangueira surgir inteira, com raízes, folhas e mangas, e teve muita vontade de ajudar. — Posso colocar uma cor numa flor? Uma pintinha numa folha? — perguntou, puxando a barra da camiseta. — Ainda não, Lirinha. Primeiro, observe; depois, você vai entender — respondeu a voz.

Liri gostava de fazer as coisas, não apenas de olhar. Por isso, pegou um pingo de luz dourada que flutuava no ar e soprou em direção a uma flor. A flor, que deveria ser amarela, ficou meio esverdeada e tortinha. A voz não ficou brava, e a luz continuou quentinha e gentil. — Eu estraguei? — perguntou Liri, sentindo o coração apertadinho. — Não estragou, minha pequena. 

Apenas não era a hora certa, nem a mão certa — respondeu a voz. Com um carinho parecido com uma brisa morna, ela tocou a flor, que voltou a ser amarela e ficou novamente no seu lugar. Liri respirou mais tranquila. Começou a entender que cuidar também é saber o que fazer, quando fazer e como fazer. Era uma lição grande, daquelas que a gente aprende aos poucos.

No quarto dia, o sol e a lua apareceram no céu, um para cuidar do dia e a outra para iluminar a noite. Junto deles surgiram tantas estrelas que Liri tentou contar, mas parou quando seu braço ficou cansado. — Cada estrela tem nome? — perguntou. — Cada uma tem — respondeu a voz. — E nenhuma está no lugar errado, nem mesmo aquela que você não consegue ver.

No quinto dia, o mar se encheu de peixinhos coloridos e o céu, de passarinhos. Liri ficou tão feliz que teve vontade de dançar. — Posso colocar uma pintinha na asa de um beija-flor? Só uma, por favor? — perguntou. A voz ficou em silêncio por um instante, como a mãe quando está pensando se deixa Liri comer um doce antes do almoço. — Tudo bem. Uma pintinha, na asa do beija-flor que pousou naquela flor vermelha. Você escolhe a cor.

O coração de Liri bateu depressa. Ela escolheu o azul, sua cor favorita, e olhou para a luz dourada em sua mão, pequena como uma bolha de sabão. Sua mão tremeu um pouquinho. “E se eu errar? E se a asa ficar torta?”, pensou. Liri respirou fundo uma vez, depois mais uma, e soprou a luz com cuidado.

Uma pintinha azul apareceu na asa do beija-flor, pequenina e brilhante como um vaga-lume numa noite de junho. O passarinho não se assustou; apenas virou a cabeça e olhou para Liri com curiosidade. A voz riu, como se muitos sininhos tivessem tocado ao mesmo tempo. — Às vezes, a gente erra e, às vezes, acerta. O importante é tentar com cuidado, na hora certa. Liri sorriu, contente por ter conseguido.


No sexto dia, a terra se encheu de bichos: vacas, cachorros, capivaras, onças-pintadas, tamanduás e muitos outros. Alguns eram tão diferentes que Liri nem sabia seus nomes. Ela riu, e a luz dourada riu junto; por um instante, o riso dos dois virou uma musiquinha. — Agora vem a parte mais importante — disse a voz, com carinho. Liri parou de rir e olhou para o chão úmido, que cheirava a chuva e a capim.

No centro daquele chão, a luz começou a formar alguém. Não era uma planta nem um bicho: era uma pessoa, com cabeça, corpo, braços e pernas. — Vou fazer alguém à minha imagem e semelhança — disse a voz. A luz desenhou os cabelos, os olhos, o nariz e a boca daquela pessoa. Liri sentiu algo diferente, como se estivesse lembrando de uma coisa que nunca tinha acontecido.

Quando a luz terminou, a pessoa abriu os olhos. Liri deu um passinho para trás: aqueles olhos castanho-escuros eram iguais aos dela. — Mas… sou eu? — sussurrou. A luz dourada ficou quieta por um instante e respondeu: — Sim, Lirinha. E não só você. Cada menino, cada menina e cada pessoa que já nasceu ou ainda vai nascer foi pensada antes mesmo de o mundo começar. Liri sentou no chão, pois suas pernas estavam um pouco bambas.

— Você desenhou o mundo inteiro para nós? — perguntou ela. — Cada detalhe, cada cor, cada folha e cada estrela foi preparado com carinho — respondeu a voz. Liri olhou para as mangueiras, os passarinhos, o sol e o mar. Agora entendia por que tudo parecia tão bem cuidado: era um presente feito com amor e paciência. — E o meu desenho torto? — perguntou. A voz riu baixinho: — Desenho torto também é desenho, Lirinha. Quando é feito com carinho, encontra seu lugar.

A luz dourada ficou mais suave e quentinha. — Já está na hora de voltar, Lirinha — disse a voz. A menina queria ficar mais um pouco, fazer perguntas e ver outras coisas, mas sabia que o sonho precisava terminar. — Vou poder voltar? — perguntou. — Você não precisa voltar, meu amor. Basta olhar pela janela, ouvir o sabiá e sentir a chuva. Estou em cada detalhe, todos os dias — respondeu a voz.

Liri assentiu, com os olhos marejados. A luz tocou sua testa de leve, como a mão da mãe quando ela precisava de um carinho. Então, o branco voltou, e o sonho terminou. A manhã entrou pela janela, trazendo um cheirinho parecido com o da terra molhada do dia anterior. Quando abriu os olhos, Liri viu o caderno embaixo do travesseiro, no mesmo lugar.

O sol verde e a árvore de cabeça para baixo continuavam na página, como se nada tivesse acontecido. Mas Liri se sentia diferente. Pegou o caderno e os lápis, sentou no chão do quarto e fechou os olhos por um instante, com as mãos juntas no colo. — Obrigada — sussurrou, sem precisar explicar para quem. Então começou a desenhar: fez uma mangueira com raízes, flores e mangas maduras, e, embaixo dela, uma menina de cabelos pretos e crespos, sorrindo com um lápis na mão e uma estrela azul na outra.

A mãe entrou no quarto trazendo canjica quentinha e café. Parou na porta para olhar o desenho. — Nossa, Liri, este ficou diferente, não é? — disse, com um sorriso especial. — Ficou, mãe. Aprendi que o desenho não precisa ser perfeito; só precisa ser feito com carinho — respondeu Liri, sem tirar os olhos do papel. A mãe talvez não entendesse tudo, mas o desenho mostrava o que Liri sentia. 

Lá fora, o sabiá cantou no fio do poste, e o sol entrou pela janela. Liri sorriu: agora sabia que também fazia parte daquele mundo tão grande. Era uma parte pequena, mas importante, da grande tela do Artista Supremo.

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